Meklit: a etíope-americana é mais do que apenas uma cantora

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É bem provável que você nunca tenha ouvido falar de Meklit, cantora nascida na Etiópia e criada nos Estados Unidos. Eu mesma não a conhecia, até que topei com uma versão incrível dela para You Got Me, hit do The Roots que traz a participação de Erykah Badu.

“Eu vinha querendo cantar essa canção há 8 ou 9 anos. Eu cresci no Brooklyn e, como uma jovem da Etiópia, nunca ouvi meu nome ser chamado em público. Toda vez que as pessoas falam da Etiópia, é sobre a loucura da pobreza. Eu quis interpretar a música com o meu toque de jazz etíope. Foi uma maneira de dizer obrigado para o The Roots e o hip-hop por terem me ajudado a ser quem eu sou. Eu quis imprimir um ritmo da Etiópia.” –  para o site Okay Africa.

Meklit é mais do que uma artista. Ela é uma ativista cultural, que parece estar de busca de saber como a música e a arte nos ajuda a saber quem somos e para onde vamos coletivamente. A cantora está sempre em movimento, envolvendo-se em mil e um projetos. Em 2015, deu uma palestra no TED Talks chamada The Unexpected Beauty of Everyday Sounds, em que discute como os sons que nos rodeiam no dia a dia ajuda na composição musical. Você pode ver o vídeo, em português, neste link.

A estreia oficial se deu em 2010, com On a Day Like This. Em junho de 2017, ela chega a seu terceiro disco: When The People Move, The Music Moves Too, com produção de Dan Wilson (John Legend e Adele, entre outros) e, segundo ela mesma diz em seu site, inspirado por Mulatu Astatke (o pai do ethio-jazz). O álbum conta com a participação de Andrew Bird e a orquestra Preservation Hall, voltada ao jazz de New Orleans.

Você ouve I Want To Sing for Them All, do mais recente álbum. Kemekem é uma releitura de uma música de amor tradicional da Etiópia. You Got Me, você já sabe, é a reinterpretação dela da música do The Roots. A propósito: vez ou outra Meklit é comparada a Joni Mitchell.

 

 

 

 

 

 

 

Bandas e músicos indie fazem tributo ao Skank

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Autora de hits como Garota Nacional e É uma Partida de Futebol, o Skank foi uma bandas mais celebradas dos anos 90 e, sem dúvida nenhuma, referência do pop-rock vindo de Minas Gerais.

Por causa disso, o Scream & Yell decidiu fazer um tributo aos hoje não mais garotos mineiros liderados por Samuel Rosa. Com produção de  Pedro Ferreira, o disco duplo Dois Lados reúne alguns dos expoentes da nova geração musical nacional, como Francisco, el Hombre e As Bahias e a Cozinha Mineira. São 34 artistas e bandas, que revisitam a obra do Skank e dão o seu toque pessoal a canções do grupo.

O disco-tributo tem altos e baixos. Você pode escutá-lo inteiro no site do Scream & Yell e também baixar o álbum gratuitamente. Clique neste link.

Você escuta Esquecimento, do álbum Velocia (2014), com o quarteto Cobra Coral; e Pacato Cidadão, do disco Calango (1994), reinterpretada por Francisco, el Hombre.

 

 

 

 

 

Conheça o músico grego que foi inspirado pelo movimento Dogma 95

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Eu tenho que admitir que nunca busquei saber muito sobre os sons que são produzidos na Grécia. Não me pergunte por que, mas nunca dei muita bola. Até que recentemente descobri alguns artistas incríveis, sobre os quais já falei aqui: The Man from Managra e Σtella.

Volto a descobrir um trabalho dos mais legais. Este, do músico (ele toca piano) e compositor Manos Milonakis. Originário de Thessaloniki, Manos surgiu na cena musical grega em 2006, quando montou o dueto Your Hand in Mine (também bacanudo – falarei dele logo, logo). O grupo se desfez em 2014, e Manos resolveu se lançar em carreira solo.

O primeiro trabalho foi o EP Sólfar, gravado em Reykjavik, na Islândia, com um quarteto de cordas. Vale um parênteses (a sonoridade de Manos tem tudo a ver com as paisagens e os campos abertos islandeses).

Agora, o músico embarca em outro projeto bacana: a trilha sonora para Festen, adaptação teatral do filme de Thomas Vinterberg, tido como a primeira obra do Dogma 95, movimento que propôs um cinema de autor natural, que proibia uso de filtros de luz, iluminação artificial, truques de som, entre outras coisas. Além de Vinterberg, o Dogma 95 teve como idealizador Lars von Trier.

Festen reúne 12 músicas instrumentais com base eletrônica que, além do piano, são acompanhadas por instrumentos de corda (violino e cello, por exemplo).

Sugiro 3 músicas:  Dressing e The Scolding, ambas de Festen, e Towards the Setting Sun, do álbum Sófar.

 

 

 

 

 

 

Lançada trilha sonora inédita de Thelonious Monk

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Um belo dia, o pianista Thelonious Monk resolve fazer algo que jamais havia tentado antes: gravar músicas para um filme. O ano era 1959 e o filme, Les Liaisons Dangereuses (Ligações Perigosas, em português), que teve direção de Roger Vadim e foi estrelado, entre outros, por Jeanne Moreau e Gérard Philipe.

Naquela época, conta o site All About Jazz, muitos dos cineastas franceses se voltaram aos jazzistas americanos para criar trilhas para seus filmes. Foi o que aconteceu, por exemplo, com Louis Malle, que pediu a Miles Davis fazer a trilha de seu filme Ascensor para o Cadafalso, de 1958. Foi o que aconteceu com Vadim e Monk.

Bem, o que era para ter virado um disco acabou sendo engavetado e o projeto morreu ali. Na ocasião, Monk, que vivia um período de extrema produtividade e estava em sua melhor forma, gravara mais de 30 minutos de música, que acabaram caindo no esquecimento.

O engraçado é que a trilha é basicamente de autoria de Thelonious Monk. Porém, o que acabou virando disco foi a participação do baterista Art Blakey e sua banda Jazz Messangers na trilha sonora.

Até que uns anos atrás, as fitas máster das gravações foram redescobertas. Depois de remasterizadas, foram lançadas como disco (vinil mesmo) no Record Store Day deste ano. Como CD (duplo), o material, que recebeu o nome de Thelonious Monk: Les Liaisons Dangereuses 1960, foi lançado em junho de 2017.

Encontrei duas músicas que fazem parte do disco no Soundcloud:  Light Blue e By and By, que você ouve abaixo. Para deixar-se levar pela genialidade do homem.

 

 

 

 

Guarde o nome deste rapper: Loyle Carner

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Deixe-me contar um pouco sobre esse moleque de Croydon (subúrbio de Londres). Loyle Carner tem só 22 anos, ama futebol e a mãe. Até aí, tudo certo. Mas não é qualquer um (especialmente gente do meio do hip-hop) que tem coragem de fazer um tema (Cantona) para um dos jogadores mais emblemáticos do futebol inglês e um dos melhores da história, o francês Éric Cantona. Pior, para um jogador que defendeu um time (o Manchester United) que não é o dele (Liverpool).

Também não é qualquer rapper que tem coragem de admitir que ama a mãe, retrabalhar a letra da música de Kanye West Heard ‘Em Say para fazer um tributo a ela e levá-la ao palco em um show em Londres para agradecer o que ela fez por ele.

O fato é que Loyle Carner é o novo queridinho dos críticos e o nome a ficar de olho a partir de agora. Com Yesterday’s Gone (lançado em janeiro de 2017), o excelente disco de estreia, ele conquistou a crítica especializada por mesclar dois gêneros que são o coração da música negra (o hip-hop e o soul) e outro que é a cara da Inglaterra: o grime. O grime é uma espécie de derivação (à inglesa) do hip-hop. Tem como base batidas eletrônicas (que vem do UK Garage), que servem como pano de fundo para que os MCs possam compor seus versos.

Yesterday’s Gone não é só bom musicalmente. Carner fez um álbum extremamente pessoal, em que a figura da mãe aparece quase o tempo todo, em que expõe o ressentimento em relação ao pai biológico, que nunca o assumiu, em que canta para uma irmã que nunca teve (a música Florence).

Você ouve Ain’t Not Changed, na linda The Isle of Arran (repara no coro gospel) e No CD, todas do disco-debut.

 

 

 

 

 

Capixaba Silva canta Marisa Monte

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O capixaba Lúcio da Silva Souza, ou Silva, é um dos nomes de destaque da nova safra de músicos brasileiros. Silva estreou oficialmente em 2012, com o disco Claridão, pelo selo SLAP (braço da gravadora Som Livre). Porém, o músico e compositor teve alguns altos e baixos nos álbuns subsequentes: Vista pro Mar (2014) e Júpiter (2015).

Até que um encontro despretensioso com Marisa Monte fez surgir a ideia de um disco de releituras de canções dela. Silva era fã de Marisa desde criança. O fã acabou virando amigo e, em uma das visitas à casa da cantora, mostrou a ela um melodia que compusera.

Marisa gostou do que ouviu e resolveu escrever uma letra para a melodia. O resultado é Noturna (Nada de Novo na Noite), assinada por ela, Silva e pelo irmão Lucas (parceiro de composições) e gravada por Silva e ela no disco Silva canta Marisa, de 2016.

“A escolha das músicas foi baseada naquilo de que eu mais gostava, claro, e também no que melhor combinava comigo. Existem várias canções de Marisa que eu amo, mas que eu preferi respeitar e não mexer, porque corria o risco de não ficarem legais. Optei por deixá-las quietinhas e mexer só no que eu considerei que faria algo interessante ao rearranjar.” – Silva, para o jornal O Globo.

Você ouve Beija Eu (o clipe é incrível!), Noturna e Infinito Particular. Divirta-se.

 

 

 

 

 

 

Banda portuguesa The Gift lança álbum com produção de Brian Eno

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Arrisco dizer que o The Gift é uma das primeiras bandas portuguesas para exportação e a compor e a cantar em inglês (não exclusivamente, claro).

Formado por Sónia Tavares (vocal), Nuno Gonçalves (teclado e letras), John Gonçalves (teclado e baixo) e Miguel Ribeiro (guitarra e baixo), o quarteto surgiu em 1994 (23 anos, portanto), em Alcobaça,  num concurso de pop-rock.

A coisa começou devagarinho. Foi só a partir de 2005, com os discos AM-FM e Fácil de Entender que os The Gift conquistaram de fato a crítica. Em 2005, levam o prêmio da MTV Europa na categoria Best Portuguese Act. Dois anos depois, mais um baita prêmio: o Globo de Ouro de Melhor Grupo.

O oitavo álbum da banda, lançado em junho de 2017, marca o amadurecimento da banda. Produzido e co-escrito por Brian Eno, Altar não só chegou ao primeiro lugar de vendas em Portugal como vem recebendo elogiosas críticas de revistas e sites internacionais, entre elas, da revista inglesa Uncut e da revista frances Les Inrocks.

O clipe de Big Fish, um dos destaques do disco, foi gravado no Brasil. A banda já havia desembarcado por aqui em 2013, para uma série de shows, e 2011, quando tocaram no Rock in Rio.

“Pretendíamos um cenário quente e colorido, que era impossível de encontrar em Portugal no mês de janeiro. Além disso, o Nuno teve a ideia de que eu cantasse com duas partners e convidamos uma dupla glamourosa de drag queens, as Deendjers, de Curitiba”, Sónia, para o Scream & Yell (leia a entrevista completa neste link).

Você escuta Hymn to Her, Big Fish e Vitral, que estão em Altar, e It’s The End of The World, cover do R.E.M.

  • a propósito, em várias entrevistas do grupo na internet, eles afirmam a vontade de voltar ao Brasil este ano. Portanto, é bom ficar ligado.

 

 

 

 

 

Vitrola Sintética: a banda “desconhecida” que foi indicada 2 vezes ao Grammy Latino

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Tenho que confessar que não conhecia o Vitrola Sintética, uma banda da minha cidade: São Paulo. Topei com ela por acaso, fazendo uma das muitas e extensivas pesquisas de todo dia para o blog. Li uma seleção feita pelo Zeca Camargo dos melhores discos de 2015 e lá estava ela. Busquei no YouTube alguns vídeos e pronto: fui capturada pela sonoridade e pela voz do Felipe Antunes.

O grupo surgiu em 2007. Além de Felipe, que além de cantar, é autor da maioria das canções e também toca guitarra, O Vitrola conta com Rodrigo Fuji (guitarra e piano), Otavio Carvalho (baixo e sintetizadores) e Kezo Nogueira (bateria e mpc).

Notícias, o primeiro disco, chegou em 2009. Expassos, o segundo, veio em 2012. Embora os rapazes meio que custeassem a sua música, segundo disseram à Folha de S. Paulo, algo que não tão difícil de acontecer entre a galera da cena indie brasileira, foi a partir do terceiro disco (Sintético, de 2015) que eles de fato começaram a arrebentar.

Você sabe, né? Não raro uma banda é “descoberta” nacionalmente quando ganha destaque internacional. Foi o que aconteceu com os rapazes do Vitrola. Sintético foi indicado a 2 categorias do Grammy Latino: Melhor Artista Revelação e Melhor Engenharia de Gravação.

Um ano depois, e lá estão eles novamente. Deus, uma das canções de Sintético B, o quarto disco da trupe (na realidade um EP), foi indicada à melhor canção alternativa de 2016.

O release oficial do Vitrola diz que a maioria das canções deles tem natureza roqueira. É mais sofisticado que isso. Por vezes, vejo um “quezinho” da sonoridade do Los Hermanos (a fase madura da banda).

Bom ficar de olho nos próximos passos do grupo. Porque promete. E muito.

Você ouve Deus Te Ouça, Minha Garota e Beijo de Rimbaud, todas em Sintético. Dá pra baixar todos os discos da banda no site oficial deles, clicando aqui. São todos lindos de morrer.

 

 

 

 

 

Los Fulanos é prova de que o boogaloo encontrou o seu espaço em Barcelona

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Los Fulanos é um coletivo de Barcelona composto por 9 músicos. A banda surgiu em 2006, graças ao baixista do grupo de disco-funk Fundación Tony Manero. Juan Carlos Díaz (que adotou o nome artístico Deliciosa Smith) achou que dava pé montar uma banda de boogaloo, fez a proposta a alguns amigos e pronto: surgia o Los Fulanos.

O primeiro disco, Arqueología (na realidade um EP), veio pouco tempo depois. O som da galera era tão animado, tão bacana, que logo chamou a atenção do legendário Joe Bataan, um dos maiores representantes do soul latino. Joe convidou os caras para abrirem seus shows numa longa turnê e, em 2009, gravaram um disco juntos:  Joe Bataan With Los Fulanos.

“Nosso antigo selo tinha os direitos de alguns dos discos dele. Assim, quando começamos a turnê, vimos que era uma opção lógica que nos reuníssemos. As canções eram de Joe, mas mudamos algo dos arranjos e experimentamos coisas novas. Ele nos deu conhecimento e nos demos a ele rock n’roll.” Manuel Santiesteban, para a Staf Magazine (leia a entrevista inteira aqui)

O primeiro (e único disco até o momento), foi lançado 3 anos depois. Si Esto Se Acaba Que Siga El Boogaloo reúne 10 canções, cantadas em inglês e espanhol. A sonoridade vai desde o boogaloo ao funk e ao disco.

Você ouve Blue Monday, delicioso cover para a música do New Order, e Why Don’t We Do Some Boogaloo?

 

 

 

Bror Gunnar Jansson: o one-man band que vem da Suécia

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Antes que você fique se perguntando que diabos é ser um one-man band, eu explico: Bror Gunnar Jansson (cujo apelido é Gugges Enmanna – Gugges é o diminutivo de Gunnar e Enmanna, one-man) é um multi-instrumentista. Toca guitarra, bateria (os dois instrumentos ao mesmo tempo!), percussão, saxofone e escreve as letras de suas canções.

Natural de Gotemburgo, na Suécia, Bror vem de uma família de músicos e desde muito jovem, aparecia em barzinhos em sua cidade para curtir um som ao vivo. Não demorou muito para que começasse a investir em seu próprio som.

“Quando eu tinha 12 anos,me fizeram ouvir gravações de Muddy Waters, Howlin ‘Wolf e muitos outros. Daí eu comecei a pesquisar a história da música americana. Descobri raridades e nomes como Charley Patton e Staple Singers. Pena que tive que parar nos anos 1920 porque não havia registros.” – para o Libération

Bror faz um blues pesadão, sem firulas, meio roqueiro, quase cru (sim, esse tipo de blues tem nome: blues gótico). No palco, se veste como se estivéssemos nos anos 20 dos Estados Unidos.

 

O primeiro álbum, homônimo (2012), meio que passou batido, segundo ele admite em seu site. Dois anos mais tarde, lançou um EP em vinil que ficou famoso pelo reduzidíssimo número de cópias: 49!

“Antes desse, eu tinha prensado um vinil com 100 cópias. Foram edições limitadas divertidas, mas nada muito importante. Eu quero que um grande número de pessoas tenha acesso à minha música.” – para a revista francesa Les Inrockuptibles.

Moan Snake Moan, o segundo álbum, veio em 2014, e estourou. O disco foi escolhido pelo Canal + francês o Álbum da Semana, e Bror, eleito revelação do ano pela Les Inrocks. Este ano, lançou o EP And the Great Unkown Vol.1, seguido pelo disco And the Great Unkown Vol.2.

Engraçado ler algumas resenhas suecas sobre Bror e constatar que os próprios críticos dizem que ele é mais conhecido na França do que em seu próprio país. Com as críticas pra lá de favoráveis do último disco, a coisa deve mudar de figura rapidinho.

Você ouve God Have Mercy (o clipe é incrível), de Moan Snake Moan; Moan Snake Moan part.III e The Great Unkown, do disco mais recente,