Daiisy: o duo da Noruega que promete

Daiisy

Deixa eu começar dizendo que eles só têm um single oficial, digamos assim, no YouTube: a canção Shilly-Shally. Na página deles no Soundcloud, você encontra mais duas músicas, ambas gravações ao vivo de participações deles no Nasjonal Jazz Scene.

Mas ouvindo essas três canções já pra ter uma ideia de onde eles podem chegar. Estou falando do duo norueguês Daiisy, composto por Thea Emilie Wang, nos vocais e produção eletrônica e Henrik Håland, na bateria.

O som do Daiisy, que fica entre o folk e o pop, usa batidas eletrônicas para criar uma atmosfera.

“Nós nos conhecemos em 2013, quando começamos a fazer um curso na Academia Norueguesa de Música, em Oslo. Embora a gente tivesse tocado juntos numa banda lá, nunca havíamos tocado como duo até 2015. Um dia, acabamos fazendo uma gig juntos, gravamos e de repente nos demos conta de que tínhamos feito algumas canções. Um tempinho depois, a banda havia nascido.” – para o Musique Pour Tout Le Monde

Entre as referências de Thea e Henrik, estão Bon Iver, Broen, Sigur Ros e Sondre Lerche. Quanto ao primeiro disco, eles parecem ter os pés no chão.

“Não sabemos ainda! Primeiro a gente tem que ganhar grana e, então, talvez, a gente comece a pensar em um álbum. Por enquanto, é um sonho.” – para o Musique Pour Tout Le Monde.

Bem, enquanto o álbum não chega, você escuta Shilly-Shally e Fun.

 

 

 

 

 

 

O rapper que reinterpretou Camus e Verdi

abd-al-malik

Se você ainda não conhece esse cara, guarde bem o nome dele: Abd al Malik. Não só ele é o retrato da França multicultural, com todos os seus desafios, paradoxos e problemas, concentrados particularmente na periferia, onde vivem basicamente imigrantes e negros, como é um dos mais produtivos e geniais artistas de sua geração e o mais influente artista do hip-hop na França. Ele não faz música apenas. Escreve, dirige, atua, trabalha com o teatro e a ópera.

Abd al Malik arrebentou em um momento em que a França viu a população jovem e filhos de imigrantes dos subúrbios se levantar e protestar violentamente por melhores condições (2005).

Inspirado pelo sufismo (corrente mística do islamismo), religião que adotou depois de passar a infância como na igreja católica, al Malik surgiu com Gibraltar, disco que combinava letras poderosas (poesia slam), mas que pediam o fim do ódio, sonoridade que incorporava elementos do jazz, do rap/hip-hop e até da chanson francesa – é clara a influência de um de seus ídolos, Jacques Brel (no álbum, há as participações do pianista e do acordeonista de Brel: Gérard Jouannest e Marcel Azzola). Les autres, por exemplo, é a visão do músico da canção Ces gens-là, de Jacques Brel.

Como diz Jacques Denis no Le Monde Diplomatique, o disco foi recebido como uma benção, ao preconizar a fraternidade, mas também a consciência política. Em 2007, Gibraltar leva o prêmio Victoires de la Musique (a mais importante premiação francesa) de melhor disco de música urbana do ano. Em 2008, recebe a insígnia de Cavaleiro das Artes e das Letras.

Era o pontapé que esse artista de origem congolesa precisava. Em 2009, volta a receber o Victoires de la Musique pelo disco Dante.

Camus

Em 2013, al Malik resolve se voltar a outro de seus ídolos, o escritor Albert Camus.

“Eu havia montado o meu primeiro grupo de rap (New African Poet, em 1988, com o irmão Bilal e o primo Aissa) e comecei dar os primeiros passos na obra obra de Camus. Era como se ele estivesse dizendo para mim “Então você quer ser um artista? Isso é o que acontece e isso é o que você não deve se esquecer” – para o Financial Times.

Livremente inspirado no primeiro livro de Camus, L’envers et l’endroit (1937), o espetáculo L’art et la révolte (clique no link e veja trechos do show) mesclou, poesia slam, rap, dança e audiovisual.  Em 2016, ele voltaria a falar de Camus, agora no livro autobiográfico que levou o mesmo nome do espetáculo.

Camus ainda seria inspiração para Scarifications, disco de 2015, em parceira com o produtor e DJ Laurent Garnier.

Ópera de Verdi em versão urbana

O projeto mais recente de al Malik (é de fevereiro de 2017) é a releitura de Othello, ópera de Verdi. Ele trouxe a temática para o ambiente urbano. A ficção, que foi publicada no ambiente digital, tem pouco mais de 12 min. A trilha sonora é a mesma da ópera de Verdi, mas tem arranjo de Arnaud de Solignac.

Abaixo, você ouve Le Marseillais, do disco Dante (2008); Daniel Darc, faixa de Scarifications (2015); e Gilbraltar, do álbum homônimo. Também vê Othello by Abd al Malik.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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O funk vintage-moderno de Mr President: mais groovy, impossível

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Eu falei recentemente do Bruno “Patchworks” Hovart (o magrinho de camisa azul da foto acima), quando sugeri para vocês um de seus projetos, o Voilaaa. Hoje falo de outro dos muitos projetos desse multi-instrumentista e produtor de Lyon: o Mr President.

Quando se escuta os diferentes projetos de Patchworks, fica evidente que ele é fissurado na sonoridade negra, seja ela americana, seja ela africana. A proposta do Mr Presidente é mergulhar no funk, no soul-funk americano. Não por acaso três das referências de Bruno Hovart são Georges Clinton, Kool and the Gang e Curtis Mayfield, Motown dos anos 60. O que o Mr President faz é dar um toque contemporânea a sons vintage.

Mr President nasceu pelos idos de 2006, quando Hovart começou a produzir singles e maxi singles em vinil pela Favorite Recordings, selo que ele ajudou a montar. A ideia inicialmente era mesmo só lançar em vinil, pois o público-alvo, na época, eram os DJs dos clubes europeus.

Em 2011, ele lança Number One, o primeiro álbum de verdade. Entre as excelentes faixas, destaco Love and Happiness (que você ouve abaixo), de Al Green. Hips Shaking, o segundo disco só veio em 2014 (veja, o cara se divide em pelo menos quatro outros projetos, além de produzir para terceiros).

“Eu sou produtor, acima de qualquer coisa, o que significa que minha missão é transformar ideias (minhas ou de outros) em um projeto concreto.” –  para o Fonkadelica

Você ouve Love and Happiness, Left and Right, Tribute to RZA e Trouble, todas faixas de Number One. Aumenta esse som!

 

 

 

 

 

 

DJs exploram a tradição folclórica sul-americana

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El Origen é um projeto colaborativo dos feras Rodrigo Gallardo e Nicola Cruz, o pai do Andean step ou eletrônica andina.

O projeto é interessante, porque eles não trabalharam exatamente juntos. No lado “A” do trabalho, digamos assim, há quatro músicas que foram compostas e produzidas pelo chileno Gallardo. No lado “B”, o francês Nicola Cruz remixa essas mesmas canções. Diz Nicola Cruz no release de El Origen:

“O projeto consiste de 4 composições originais de Rodrigo e 4 remixes das canções feitas por mim, como se fosse um lado A e um lado B. São peças únicas e fortes, que representam o que nós atualmente estamos fazendo com a música folclórica da América do Sul. O álbum é como se fosse uma viagem dupla. Ambos os lados coexistem ao mesmo tempo: as originais e os remixes. É como ter duas perspectivas/visões/versões da mesma ideia.”

 

Lançado em julho de 2017, o mini-álbum explora a tradição folclórica sul-americana e sonoridades que atualmente vêm sendo produzidas no continente.

Você ouve os remixes de Nicola Cruz para  Agua de la Tierra e Maria Sabina e também El Origen, canção de Gallardo.

 

 

 

 

Álbum conta a vida de Charlie Parker

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A ideia deste álbum surgiu em 2015, ano que marcou os 60 anos da morte de Charlie Parker. Bird, como também era conhecido, ajudou a definir o que conhecemos por jazz. Basta dizer que é creditado à Miles Davis, outro gênio do jazz, a seguinte frase: “Você pode contar a história do jazz em quatro palavras: Louis Armstrong. Charlie Parker.”

The Passion of Charlie Parker é um álbum diferente dos demais discos-tributos que geralmente são feitos depois de algum artista famoso não estar mais entre nós. Não foram convidados saxofonistas ou instrumentistas de jazz famosos, mas cantores e cantoras, entre eles Gregory Porter, Madeleine Peyroux, Melody Gardot e Luciana Souza.

Ao invés de recriar as músicas de Bird com a tradicional pegada bebop, foram criadas letras para essas músicas, de modo a transformar o disco numa espécie de musical, um musical que conta a história do saxofonista.

 

Segundo conta Larry Klein no site da Impulse, gravadora que lançou o disco em junho de 2017, o álbum foi um novo e diferente esforço para ilustrar o que Charlie Parker foi como personagem arquetípico e para chamar a atenção para o enorme impacto que o trabalho dele causou ao jazz. Para quem não conhece, Klein foi o produtor dos aclamados discos Both Sides Now, de Joni Mitchell, e River: The Joni Letters, de Herbie Hancock, ambos vencedores de Grammy. A propósito, Klein é o produtor de The Passion of Charlie Parker.

Entre os músicos presentes no disco, destaco três, por terem participado também de Blackstar, último álbum de David Bowie: o saxofonista Donny McCaslin, o guitarrista Ben Monder e o baterista Mark Giuliana.

 

Você ouve a música de abertura do disco, Meet Charlie Parker (versão vocal de Ornithology), na voz de Madeleine Peyroux; e The King of 52nd Street (versão vocal de Scrapple From the Apple), com Melody Gardot.

 

 

 

 

Banda argentina EMAUPM lança um dos melhores discos do ano (so far)

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O EMAUPM, ou El Mató, é o apelido carinhoso da banda argentina El Mató a Un Polícia Motorizado. Deixe-me dizer que os rapazes do El Mató têm uma tremenda legião de fãs. São, de fato, cultuados pelos hermanos argentinos. Tanto que, apesar de serem ainda garotões, recentemente (em meados de maio de 2017) foram até tema de livro – La Ruta del Sol – La Trilogía de El Mató a Un Polícia Motorizado, do jornalista Walter Lezcano.

A banda surgiu em meados de 2003, em La Plata. Segundo conta o site La Primera Piedra, o El Mató decidiu apostar num caminho fora da casinha, qual seja, um selo pequeno e uma sonoridade que diferia da que rolava na época na Argentina: um rock mais pesadão, que remetia ao dos Rolling Stones.

Mais importante do que isso, apostou em uma trilogia (seguida) de EPs e não de discos, algo que fatalmente a maior, senão a imensa maioria das bandas, faria. São eles os EPs conceituais sobre o nascimento (Navidad, de 2005), a vida (Un Millón de Euros, de 2006) e a morte (Día de los Muertos, de 2008). Apostou também numa sonoridade mais parecida com o indie rock americano do final dos anos 90/início dos 2000, cujas letras falam de temas universais, dores e amores.

“Él Mató é a melhor banda de rock argentino da fase pós-Cromañon (Cromañon é a famosa discoteca que pegou fogo em 2004 e levou à morte de quase 200 jovens e feriu quase 2 mil) . Creio que excede o marco do indie porque a sua proposta não é só musical, é também literária e iconográfica.”  – do livro La Ruta del Sol – La Trilogía de El Mató a Un Polícia Motorizado

Depois de um bom tempo sem lançar nada, o El Mató lançou, na minha opinião, um dos melhores discos do ano (so far…): La Síntesis O’Konor. O disco todo é bom, mas selecionei três das melhores canções: Fuego, Destrucción e El Tesoro.  A propósito: a capa do disco (a que você vê abaixo) é do vocalista e baixista Santiago Barrionuevo.

 

 

 

 

 

Músico britânico faz releitura de Sgt. Pepper

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Antes que você comece a se contorcer na cadeira por alguém ter ousado fazer uma releitura de Sgt. Pepper, dos Beatles, eleito o melhor álbum de todos os tempos alguns anos atrás, devo pedir a você que se acalme, porque não é exatamente uma releitura, mas um tributo.

A ideia de fazer um disco-saudação, vamos chamar assim, sempre parecera impossível ao músico britânico Django Bates, mas eis que se abrira uma janela de oportunidade: os 50 anos do álbum.

“Meu encontro com o Sgt. Pepper se deu quando comprei o álbum para o 18º aniversário da minha irmã mais velha. Através da porta fechada do quarto dela eu fui capturado por vislumbres sonoros… Que riqueza de sons, gêneros, efeitos, generosamente dispersos em palavras de loucura e sanidade”. – para a Edition Records

O compositor e multi-instrumentista, devo dizer, já havia arriscado antes em outra releitura da obra um gênio, com o disco Beloved Bird (2010), tributo a Charlie “Bird” Parker. Em Saluting Sgt. Pepper, lançado em julho de 2017, Django Bates mantém-se relativamente fiel às estruturas originais das canções, porém acrescenta uma pitadinha de inventividade a elas. Por exemplo, um sax tenor em With a Little Help From my Friend.

No disco, Bates contou com a colaboração da Frankfurt Radio Big Band, tida como uma das mais importantes formações alemãs da atualidade, e do Eggs Laid By Tigers, trio vocal sediado em Copenhague.

Você ouve Penny LaneShe’s Leaving Home e A Day in the Life.

 

 

 

 

Afro-peruvian beats reúne a nata da eletrônica em viagem musical

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Hoje eu não vou falar do trabalho de um artista ou de uma banda, mas vou falar de música, claro. Trata-se de Afro-Peruvian Beats, um minidocumentário produzido pela Red Bull Music Academy e postado nas redes no fim de julho de 2017.

O filme é uma viagem (musical, obviamente) a El Carmen, que reúne a maior população de afrodescendentes no Peru. Com pouco mais de 18 minutos, o doc foi filmado durante o Carnaval Negro de Chincha, maior evento cultural negro daquele país.

Afro-Peruvian Beats documenta a colaboração entre dois DJs que estão entre os maiores feras da eletrônica mundial, o português Branko e o chileno Matias Aguayo, além da banda de eletrônica peruana Dengue Dengue Dengue, e membros da família Ballumbrosio.

Deve-se aos Ballumbrosio, mais especificamente a Amador Ballumbrosio (o “Champita”), morto em 2009, o resgate de inúmeras tradições afro-peruanas que eram consideradas praticamente perdidas (ou esquecidas), como o zapateo, um tipo de sapateado inventado pelos negros peruanos.

Veja o filme abaixo.

 

 

 

 

 

 

 

 

O pop-folk delicado da chilena Natisú

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Natisú é o apelido de Natalia Suazo, chilena que embarcou em carreira solo lá pelos idos de 2009/2010. Fã incondicional de Bjork, Portishead e PJ Harvey, os quais, ela admite, influenciam fortemente o seu trabalho, Natisú faz um mix bem equilibrado de pop, folk e eletrônica.

Seus primeiros trabalhos foram os EPs Demo (2010), Relato entre Paréntesis (2011) e Los Muertos (2012). Cada um deles tem uma temática e conceito próprios. Em 2013, segundo o site dela, Natisú se aventura em um projeto mais ambicioso, que foi financiado por meio do crowdfunding. La Historia, lançado em 2014, foi superbem recepcionado pela crítica e deu início a uma série de convites para tocar fora do país.

“Sinto que no Chile acontecem coisas legais em termos musicais, mas, às vezes, a ansiedade por lançar material acaba gerando pouca profundidade e uma estandartização no conteúdo. A mim me interessa jogar com a estrutura da canção pop e surpreender o público com timbres ou mudanças de métricas quase imperceptíveis.!” – para o El País

Com dois singles recém publicados no Youtube, ela se prepara para lançar no segundo semestre Hay un Fuego.

Promotora cultural

Natisú também atua como espécie de promotora cultural de bandas e artistas indie chilenos. Um de seus projeto, que teve início em 2010, é chamado de Mi Casa es Su Casa.  Com os recursos que ela tinha à mão naquele momento, abriu sua casa para concertos íntimos, que eram exibidos depois no YouTube. Natisú também é apresentadora do programa de rádio Nación Indi.

Você ouve Canción Sensilla, do álbum Los Muertos; Paisage, música que deve integrar Hay un Fuego; e Mañana, do disco La Historia.

 

 

 

 

 

A celebração da herança africana nos ritmos cubanos

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Para quem não conhece, o camaronês Richard Bona faz parte daquele seleto grupo de contrabaixistas que possuem uma habilidade fora do comum. Um artigo no Los Angeles Times chegou o colocá-lo no patamar de Jaco Pastorius.

Hoje eu vou falar apenas de Heritage, disco mais recente de Bona. Por quê? Porque ele parece ter dado uma guinada na carreira para buscar a herança africana na música cubana. Como bem disse James Nadal, no site All About Jazz, Heritage (quer nome melhor?) é a exploração musical das duas culturas, tendo a África como ponto de origem e influência.

Um parênteses para falar um pouquinho de história: quando os escravos vindos da África desembarcaram em Cuba, herdeiros do que fora um dia o império Mandekan, eles passaram a se reunir em agremiações que foram chamadas de cabildos. Os cabildos eram locais onde a cultura oral e as tradições, entre elas a música e a dança, eram compartilhadas e preservadas.

 

No disco, Richard Bona (também chamado de o Sting africano, embora eu não concorde muito) conta com o instrumental do sexteto Mandekan Cubano. Heritage foi lançado em junho de 2016 pelo selo Qwest Records, de Quincy Jones.

Você ouve Jokoh  Jokoh e Muntula Moto.