3 rappers franceses de 20 e poucos anos que provavelmente você não conhece

MHD-french-rap

Eu sempre gostei de hip-hop. Nos anos 90,  ouvia direto Tupak e B.I.G. Nos anos 2000, foi a vez de Eminem, Jay Z, IAM, MC Solaar, Control Machete, Cypress Hill. Desde então, curto investigar quem são os nomes mais promissores do gênero mundo afora.

O rap francês, claro, sempre esteve na minha mira – desde IAM, MC Solaar e, mais recentemente, a incrível e ultrapolitizada Keny Arkana.

Selecionei 3 rappers de 20 e poucos anos que você deveria ficar de olho. Guarde estes nomes:

1.Lonepsi

Ele tem 20 e poucos anos, é filho de pais argentinos e é leitor de Baudelaire. Tem horas que ele canta, tem horas que ele declama, tem horas que ele toca (piano e guitarra). Algumas de suas letras são quase poemas, alguns de seus poemas viraram músicas.

Confere só o trechinho de Des Rêves Inexaucés:

“On se dévoilait toutes nos failles incosciemment

Durant les moments les plus parfaits”

ou

“Inconscientemente, revelamos as nossas falhas

Durante os momentos mais perfeitos”

O rapaz lançou há pouco o EP San Dire Adieu, em que declama a poesia Le Chien et le Flacon, baseada em poema homônimo de Baudelaire. Grande promessa do rap francês.

 

 

2. Nekfeu

Nekfeu, ou Ken Samaras (seu verdadeiro nome), atua no mundo do rap já faz um bom tempo. Próximo de completar 28 anos, ele também atua no coletivo L’Entourage e no grupo 1995.

O rap do cara é eletrônico, a cara da geração 2.0. Suas letras falam da vida nos grandes centros urbanos, do mundo virtual (óbvio), drogas, amor, amizade. Feu, o álbum de estreia, levou o consagrado prêmio Victoires de La Musique de 2016 na categoria música urbana. O segundo, Cyborg (quer coisa mais contemporânea do que falar de ciborgues?), foi aclamado pela crítica especializada.

O francês também arriscou no cinema, fazendo um par inusitado com Catherine Deneuve em Tout nous sépare (2017).

 

3. MHD

O cara tem só 22 anos (ele é o sujeito da foto do post) e já virou referência. MHD é o pioneiro um novo estilo que recebeu o nome de Afro Trap, um mix de ritmos africanos e de trap, um subgênero de hip-hop surgido nos EUA lá pelos anos 2000.

MHD teve uma ascensão meteórica. Em menos de cinco anos, passou de entregador de pizza a fenômeno nas mídias sociais (Bravo, que você ouve abaixo, teve 24 milhões de vizualizações) e nos estádios de futebol. Fanático por futebol (procure a música Champions League no YouTube ou repare nos clipes do cara – quase sempre ele veste uma camiseta de um time), ele inventa várias dancinhas. Uma delas foi adotada (veja neste link) por alguns dos jogadores do PSG quando celebram o gol.

O disco de estreia, MHD, foi lançado em 2016. Há quem diga que o francês deve lançar um novo este ano. Tomara.

 

 

 

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Projeto Street Player bota talentos da dança de rua para rebolar ao som de house

street-player-livity-youtube

Mais um daqueles projetos simples, mas bacanudos, que a gente encontra nas redes sociais. Lançado em fevereiro de 2016, o Street Player é um canal do Youtube que traz jovens talentos da dança de rua do mundo todo (a maior parte, claro, é britânica, já que os idealizadores também são) rebolando ao som de house music.

A ideia é promover não só esses artistas, mas os produtores musicais que vêm fazendo um baita trabalho ao remixar e reinterpretar gente como DJ Shadow, por exemplo, ou os Groove Armada. Mais do que isso, Callum McGeoch, ex-editor da Dazed, revista britânica dedicada às artes e à moda e que atualmente lidera o projeto, quer capacitar esses jovens. Por isso, vem dando cursos de produção de vídeo e de mídias sociais.

Callum integra o Livity, agência que tem a cultura jovem no foco. Foram eles que criaram, por exemplo, a série Dubplate Drama (2005 a 2009). A novelinha, praticamente um reality show, já que o público podia votar, acompanhou um grupo de garotos e garotas do mundo da música cujo sonho era assinar um contrato para gravar um disco.

No site da Livity, produtores e artistas de rua podem se inscrever para participar.

 

Dá uma conferida em alguns vídeos do Street Player. Os dançarinos simplesmente escolhem um local qualquer em suas cidades e bora lá dançar.

 

 

 

Primeiro e último disco de Magín Díaz é celebração à vida

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Imagine um cara que não sabe ler nem escrever, mas compôs algumas das canções que hoje compõem o registro folclórico nacional colombiano. Imagine viver praticamente no anonimato, não receber direitos sobre suas músicas e chegar aos 95 sem nunca ter gravado um disco solo.

Contada em pouquíssimas palavras, esta é a história de Magín Díaz. Como muitas de suas canções fazem parte da cultura colombiana (cito Rosa, por exemplo) e como Magín se aproximava dos 95 anos, um produtor resolver dar a ele um presente, quase uma homenagem em vida: o seu álbum de estreia.

Lançado em maio de 2017, El Orisha de la Rosa tem produção apuradíssima. Reúne não só gente das antigas, como a cantora colombiana Totó la Momposina, como bandas da nova geração, entre elas Monsieur Periné, de quem já falei aqui, o coletivo Systema Solar e a portenha La Yegros. Também foram convidados artistas plásticos para criar uma obra baseada em cada uma das canções do disco. A linda capa, aliás, levou um prêmio no Grammy Latino em 2017. Dá uma conferida no minidoc sobre o disco abaixo.

Morte

Em novembro de 2017, Magín viajou aos EUA para participar da cerimônia de entrega dos Grammy. Pouco dias depois da festa, o músico colombiano foi internado e veio a falecer. Fica este tardio e belo registro de uma vida dedicada à música.

“Cantar para mí es como si me inyectaran.  Es un corrientazo de vida.  Si yo no canto, me muero.” – para o Shock

Você ouve a linda Me Amarás e Dolores Tiene un Piano.

 

 

Sabiduria é testamento da experiência acumulada por Eddie Palmieri

Eddie_Palmieri

Sabiduria (Sabedoria, em português). A escolha desse título para o seu mais novo disco (o primeiro desde 2006) não poderia ter sido mais certeira. Aos 80 anos de idade, o pianista Eddie Palmieri coloca toda a sabedoria que acumulou em mais de 60 anos de carreira mais uma vez à serviço da música.

Sim, Eddie é um octagenário e justamente por causa disso suas músicas são frescas, joviais, atuais. Não só ele presenciou a evolução da salsa (há quem diga que sua música El sonido nuevo deu origem ao gênero) como testemunhou o surgimento de várias gerações de artistas –  alguns desses novos músicos tocam em sua banda, caso do baixista de 34 anos Luques Curtis.

“Para mí el que no baile con este disco es que está muerto o se debe morir.” – para a Latina Stereo

O disco também é testamento das dores que marcaram a vida do pianista porto-riquenho. Life, uma das músicas do disco (você ouve abaixo), foi composta para Iraida, a mulher dele. Eddie se via devastado pela doença da companheira. Como costuma acontecer com músicos, correu para o estúdio para expressar a sua dor. Gravou Life enquanto Iraida, pendurada ao telefone, o ouvia compor e improvisar. Iraida faleceu em 2014.

Você ouve Cuerdas y Tumbao e Life.

 

Top produtores de Detroit remixam clássicos do Funkadelic

Funkadelic-reworked-detroiters-cover

Uma merecida homenagem ao quase octagenário George Clinton e aos fabulosos músicos do Funkadelic e do Parliament, que basicamente inventaram o que hoje se conhece como funk rock

Funkadelic Reworked by Detroiters reúne 17 músicas dos áureos tempos de Westbound Records, o selo que abrigou a banda de 1968 a 1976. É o mesmo selo que agora reúne alguns dos top produtores de Detroit para, mais do que remixar, fazer uma releitura de alguns dos clássicos da banda. Tem, por exemplo, o bacanudérrimo Amp Fiddler, produtor e pianista que chegou a tocar com o Parliament/Funkadelic nos anos 80. Tem também o coletivo Underground Resistance, entre outros “nomões”.

 

Segundo o The Vinyl Factory, alguns dos mais importantes produtores/DJs de Detroit, entre eles Carl Craig, chegaram a trabalhar em remixes, mas consideraram que o haviam produzido não tinha ficado à altura da banda de George Clinton.

A importância do Funkadelic para a música é gigantesca. Além do fato de, claro, eles serem referência quando se fala de funk dos anos 70/80, os Funkadelic são tidos como uma das bandas mais sampleadas do mundo. De De la Soul a Snoop Dog, de DJ Shadow ao Massive Attack, quase todo mundo já sampleou um trechinho de alguma das canções da banda.

 

Você ouve Music 4 My Mother, trabalho do Underground Resistance e You Can’t Miss What You Can’t Measure, releitura de Alton Miller.

 

Dedilhar de cordas de Norberto Lobo fala ao coração

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É sempre surpreendente quando topamos com um virtuoso que aprendeu, sozinho, a extrair sons cristalinos e limpos de seu instrumento e a construir uma sonoridade que fala ao coração.

A história do português Norberto Lobo é mais ou menos esta. Garoto ainda – uns 7 ou 8 anos – começou a arranhar o violão e pegar gosto pela coisa. Os sons nascidos das cordas lhe traziam tanta alegria quanto jogar um videogame.

“Era como o game boy. Hoje ainda é assim. A guitarra ainda é como um game boy, ainda é uma brincadeira, ainda é um jogo. Normalmente o problema é ter de parar de tocar, é ter outras coisas na vida para fazer.” – para o Diário de Notícias.

Mais tarde o violão foi trocado pela guitarra acústica e pela elétrica, mas ainda se percebe nele a mesma satisfação de tocar que o antigo instrumento lhe trazia quando era criança.

Do trabalho solo ao ensemble

Norberto Lobo é o tipo de músico que sabe, sim, que tem uma técnica apurada, mas não a deixa sobrepujar o espaço reservado à melodia e à composição. Bastar ouvir qualquer um dos cinco discos de Norberto e o que se percebe é o quanto as suas composições e interpretações são poéticas e expressivas.

Com cinco trabalhos solo lançados (o primeiro deles em 2007, o lindo Mudar de Bina), o guitarrista foi diversificando aos poucos.

Tudo começou com o dueto com o baterista João Lobo, que resultou no disco Mogul de Jade (2013). O dueto logo abriu espaço para a entrada de outros músicos, transformando-se no sexteto Oba Oba. Lançado em 2015 pelo selo suíço Three:Four Records, o primeiro álbum do ensemble (Oba Oba) foi descrito por Clive Bell (revista The Wire) como música instrumental híbrida que canibaliza a canção popular. Sir Robert Williams, o segundo disco, chegou em 2017.

Norberto, ao que tudo indica, deve lançar um novo trabalho solo em 2018. Aguardemos o que vem por aí. É certo que coisa boa será.

Selecionei quatro músicas: Mudar de Bina, do disco de estreia; Golden Pony Blues, de Mel Azul (2012); Pen Ward, de Fornalha (2014); e Pata Lenta, do disco homônimo (2009).

 

5 mulheres que vêm mudando a cara do hip-hop na América Latina

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O hip-hop feito por mulheres começou a pipocar mais recentemente na América Latina. Quer dizer, muito mais recentemente do que aconteceu nos EUA – é coisa do início dos anos 2000.

De lá para cá, a coisa só vem crescendo. Todos os anos, mais e mais mulheres escolhem as rimas do rap para expressar a sua insatisfação, para denunciar abusos e o machismo que ainda predomina em muitos dos países da América Latina, para abrir os olhos para a corrupção, para a violência contra a mulher. São tantas e tão boas rappers na América Latina hoje que é bastante difícil fazer um compilado de nomes que se destacam.

Selecionei 5, para começar. Prometo, em um futuro post, fazer uma nova seleção de artistas. Vamos a elas, então.

1.Spektra de la Rima (Colômbia)

Promessa do hip-hop feminino, a colombiana de Bogotá está na parada desde 2007. O grande destaque vai para a regravação acústica de algumas de suas músicas (você ouve abaixo), que têm uma pegada bem latina – a caja ou cajón, por exemplo, é um dos instrumentos presentes nessa releitura – e até jazzística – o sopro delicado se destaca, como na canção Monólogo. Esse tipo de harmonia é relativamente raro no rap.

O foco de suas letras são o dia a dia e sua intimidade, dando a ambas um caráter universal. Confere só um trecho da letra de Recuento.

“No ostento de lo que tengo, ni de lo que tendré 
no me importa si me conocen, estoy pero no estaré 
De todos modos todos somos seres naturales 
personajes iguales de pensamientos banales 
estados sentimentales, movimientos similares 
una a una, se empezarán a ver las verdades 
que cada uno esconde en su mente, en los recuerdos, 
la vida y su ironía aveces siento que me pierdo, 
he seguido un camino, tal vez no ha sido el mejor, 
he reído he llorado he visto momentos de amor, 
me gusta ir viviendo la vida a mi manera 
para algunas cosas uno mismo en la escuela”

 

2. Rebeca Lane (Guatemala)

Rebeca Eunice Vargas Tamayac, mais conhecida como Rebeca Lane ou simplesmente Miss Penny Lane (a moça da foto aí de cima), é hoje uma das principais referências na luta contra a discriminação contra as mulheres na Guatemala.

O país é o quarto colocado mundial na infame lista de feminicídios. Segundo o Observatório do Grupo de Mulheres, quase 10 mil mulheres foram assassinadas desde 2000, sendo que 90% dos crimes permanecem sem punição.

As letras de Rebeca Lane são fortes e altamente politizadas. Ela usa a música para denunciar e lutar contra as injustiças sociais. Socióloga e poeta (suas poesias já foram publicadas em coletâneas), Rebeca abriu abriu espaço no hip-hop no final dos anos 80, depois do desaparecimento, durante o governo militar, de um tia que era guerrilheira.

Veja um trechinho da canção Mi bandera es negra.

“Para ser ruda no preciso más testosterona
Peligro que mi estrógeno anda machucando bolas
Tengo millones de huevos en cada ovario
No me hace más mujer ni a vos te hace menos macho

Mi rap no es femenino sólo feminista
No busco el poder porque yo soy una anarquista
No quiero dominarte soy una artista
Te embrujan mis palabras porque soy espiritista”

 

3.Eli Almic (Uruguai)

O hip-hop feito por mulheres é relativamente recente no Uruguai e Elisa Fernández, ou simplesmente Eli Almic, é um dos maiores nomes da atualidade.

A moça faz um hip-hop melódico e suave, acompanhado das batidas eletrônicas e samples de jazz e de soul de DJ RC (Rodrigo Chávez). Depois de um EP lançado em 2013, Eli entrou para a lista dos melhores discos de 2016 com o álbum Hace que Exista.

“Eli Almic é o veio rapper de Elisa. Elisa Fernández é a rapper, mas também é a atriz, a professora de Pilates, a que busca como sobreviver todo o tempo trabalhando o mínimo em coisas que realmente importam: a música e a atuação. Eli Almic é a parte mais valente e a que se arrisca, autodidata, inquieta. Elisa faz biscoito de aveia, sonha com viagens, observa, fala alto e/ou rápido. Ambas convivem em harmonia.” – Eli Almic para o Indie Hoy

 

4. Imilla (Bolívia)

Nascida em La Paz, a rapper Valeria Milligan adotou o nome artístico de Imilla MC ( imilla significa criança, em ayamara). A boliviana de 24 anos não é apenas compositora. Dedica parte do tempo ao grafite.

Foi nas ruas da cidade que ela entrou em contato com a galera do rap e começou a compor.

“O rap chegou a mim como um complemento do grafite. Eu fazia muitos grafites e o hip hop me chamava a atenção, por todos os seus elementos e porque, de alguma forma, é uma ferramenta de fácil acesso.” – para o El Mostrador

O primeiro trabalho, Katalicis Katarcis Katarys Kannabis (2012), teve boa recepção pela crítica especializada do país. Em 2016, lançou Reflejos Elementales,  em que explora os elementos da natureza (uma das minhas sugestões é justamente a música Viento).

Uma das marcas da rapper é a introdução de instrumentos andinos, como o charango.

 

5. La Fina (Cuba)

Yamay Mejias Hernandez, ou simplesmente La Fina, não é apenas rapper. Ela é a cabeça por trás do Somos Mucho Más, a única iniciativa voltada ao hip-hop feito por mulheres em Cuba. O rap é usado quase como uma ferramenta na luta contra a desigualdade de gênero.

Nos últimos 15 anos, talvez um pouco mais, La Fina vem lutando para que as rappers sejam reconhecidas e ganhem mais e mais espaço na cena musical cubana. Entre tantos projetos a que se dedica, vale destacar que ela foi a idealizadora do primeiro festival de rap feminino de Cuba.

Olha só como ela se autodescreve em sua página no Facebook:

“Mi nombre es Yamay, me dicen La Fina. Soy una mujer comun pero de pensamientos profundos. Durante mi carrera artistica he defendido a la mujer haciendole ver al mundo que tenemos un papel protagonico para el mundo, para la vida en general.”

 

Preste atenção à letra de No Aguentes Más.

 

 

Delicadeza é marca do primeiro trabalho solo de vocalista do Terno

Tim-Bernardes

Dá para recomeçar, fazer algo novo, que imprima a sua assinatura como músico e não como banda? Claro que sim. E é o que mostra Tim Bernardes, vocalista do trio de rock-pop paulistano O Terno, no seu primeiro trabalho solo.

Lançado em 2017, Recomeçar (o disco) traz um apanhado de canções feitas enquanto a banda gravava e tocava por aí.

“A maioria (das canções) está concentrada entre 2013 e 2014. Enquanto gravava com o Terno, ia guardando essa família de músicas que eu sabia que eram mais pessoais, para juntar de alguma forma.” – para o G1

Tim juntou mesmo canções pessoais, que falam do fim de um relacionamento, da dor, da descrença, mas também do juntar os pedaços, seguir em frente, deixar o que passou para trás.

Eu quis mudar                                                                                                                                 E isso implicava em deixar para trás                                                                                           Meu chão, meu conforto, o certo, a paz                                                                                      Eu fui à procura de mais”. (trecho de Quis Mudar)

Filho de Maurício Pereira, cofundador do Mulheres Negras, o paulistano de 26 anos trata essas questões com delicadeza. Delicadeza essa que está presente nas letras e nos arranjos de cordas e sopros. Tim Bernardes fez tudo sozinho – os arranjos e as mixagens e a execução de quase todos os instrumentos.

Você ouve Não (para mim, o ponto alto do disco),  Tanto Faz e Quis Mudar.

 

O rock lisérgico e blueseiro do Los Espíritus

Los-Espiritus-PRENSA-rock-argentino

Em 2017, eu apontei La Síntesis O’Konor. disco dos argentinos do El Mató a un Policía Motorizado como um dos melhores do ano. Tenho de admitir que deixei de incluir nessa seleta lista Agua Ardiente (nada a ver com bebida alcoólica, hein?), álbum dos também argentinos Los Espíritus.

Portenhos do bairro de La Paternal, o Los Espíritus é um projeto de Santiago Moraes e de Maxi Prietto, guitarrista e vocalista de uma das muitas (excelentes) bandas do indie argentino: Prietto Viaja al Cosmos con Mariano.

Os caras dizem (pelo menos é o que consta no perfil deles no Bandcamp) que o fogo os uniu certa noite, mas o fato é que Prietto, Santiago, Martín, Pipe e Miguel se uniram em 2010 pelo amor pelo blues e pelo rock. Pronto lançaram um primeiro EP, em 2011, que virou hit na Argentina e no México.

O primeiro disco, homônimo, chegou em 2013. Um ano depois, o grupo já era um dos mais importantes da cena independente de Buenos Aires. Em 2015, lançaram Gratitud e, em 2017, Agua Ardiente. Os sujeitos são independentes mesmo. Produziram e editaram todo a discografia.

Agua Ardiente é um discaço. Entrou em praticamente todas as listas de melhores discos de 2017 na Argentina e na América do Sul. É blues, é rock, mas com o característico jeito que os argentinos têm de interpretar esses gêneros e dar a eles novos matizes e um toque pessoal e local.

Os caras definem o som deles como blues espiritual e psicodélico. É uma viagem sonora, um som que tem uma baita personalidade e energia. As letras ora falam de problemas sociais E do ambiente urbano, ora nos guia para ambientes mais naturais, em que o mar (a água) se faz presente.

Confere só esses dois exemplos, o primeiro, trecho da letra de Huracanes, que abre o disco. O segundo, trecho de La Rueda.

Como mares
Que quiebran las rocas
O huracanes
Que llevan las olas
Así de fuerte somos

 

La rueda alimenta unos pocos
Para nosotros no hay
Más que palizas o entretenimientos
Para poder aguantar
Vamos a trabajar
Y después a comprar
Y hacer la rueda girar y girar y girar y girar y girar
Você escuta três canções de Agua Ardiente e Ruso Blanco, música do EP Guayabo de Agua Ardiente.

 

 

Novo álbum de Sara Tavares celebra a vida

Sara Tavares credit: TV Brasil - EBC/Ana Paula Oiveira Migliari

Em 2009, a portuguesa de ascendência cabo-verdiana Sara Tavares descobriu que tinha um tumor no cérebro. A operação e a recuperação lhe custaram 7 anos longe dos palcos e dos estúdios. Mas eis que agora ela volta à tona com Fixtadu, disco lançado em outubro de 2017.

Sobre a longa ausência dos estúdios e dos palcos, falou Sara Tavares ao Correio da Manhã (leia a entrevista, na íntegra, neste link).

“O meu corpo sofreu transformações e eu própria tive de mudar de hábitos, até porque uma vida de músico é quase igual à de um atleta de competição. Viajamos muito, fazemos muitos esforços, ficamos muitas horas acordados, estamos sujeitos aos jet lags ou a mudanças de temperatura. Foi um novo ciclo que tive de iniciar. Um disco implica fazer promoção, digressões, defendê-lo com unhas e dentes e eu não me sentia com essa disponibilidade espiritual. Andava muito cansada, inclusive de fazer entrevistas. Andei muito tempo a explicar-me e, como eu sou uma pessoa introvertida, tive de me renovar e ganhar nova energia. E depois, conseguir um conjunto de canções que façam sentido juntas não é algo que se consiga de um dia para o outro.”

Fixtadu parece marcar uma virada de página da cantora, que agora flerta com o eletrônico. Não por acaso o disco leva o nome criolo cabo-verdiano para fechado. Fecha-se um ciclo para dar início a um novo. Não por acaso também ela convidou Kalaf Epalanga, do Buraka Som Sistema, Toty Sa’Med, representante da novíssima geração da cena musical angolana, a participar do álbum. Mas, claro, as influências africanas ainda são evidentes na música da cantora.no

Você ouve Coisas Bunitas, Ginga, Brincar de Casamento e Intro (Onda de Som).

A propósito, a foto, feita para a TV Brasil, é de uma grande fotógrafa e amiga, Ana Paula de Oliveira Migliari.