5 mulheres que vêm mudando a cara do hip-hop na América Latina

rebeca-lane

O hip-hop feito por mulheres começou a pipocar mais recentemente na América Latina. Quer dizer, muito mais recentemente do que aconteceu nos EUA – é coisa do início dos anos 2000.

De lá para cá, a coisa só vem crescendo. Todos os anos, mais e mais mulheres escolhem as rimas do rap para expressar a sua insatisfação, para denunciar abusos e o machismo que ainda predomina em muitos dos países da América Latina, para abrir os olhos para a corrupção, para a violência contra a mulher. São tantas e tão boas rappers na América Latina hoje que é bastante difícil fazer um compilado de nomes que se destacam.

Selecionei 5, para começar. Prometo, em um futuro post, fazer uma nova seleção de artistas. Vamos a elas, então.

1.Spektra de la Rima (Colômbia)

Promessa do hip-hop feminino, a colombiana de Bogotá está na parada desde 2007. O grande destaque vai para a regravação acústica de algumas de suas músicas (você ouve abaixo), que têm uma pegada bem latina – a caja ou cajón, por exemplo, é um dos instrumentos presentes nessa releitura – e até jazzística – o sopro delicado se destaca, como na canção Monólogo. Esse tipo de harmonia é relativamente raro no rap.

O foco de suas letras são o dia a dia e sua intimidade, dando a ambas um caráter universal. Confere só um trecho da letra de Recuento.

“No ostento de lo que tengo, ni de lo que tendré 
no me importa si me conocen, estoy pero no estaré 
De todos modos todos somos seres naturales 
personajes iguales de pensamientos banales 
estados sentimentales, movimientos similares 
una a una, se empezarán a ver las verdades 
que cada uno esconde en su mente, en los recuerdos, 
la vida y su ironía aveces siento que me pierdo, 
he seguido un camino, tal vez no ha sido el mejor, 
he reído he llorado he visto momentos de amor, 
me gusta ir viviendo la vida a mi manera 
para algunas cosas uno mismo en la escuela”

 

2. Rebeca Lane (Guatemala)

Rebeca Eunice Vargas Tamayac, mais conhecida como Rebeca Lane ou simplesmente Miss Penny Lane (a moça da foto aí de cima), é hoje uma das principais referências na luta contra a discriminação contra as mulheres na Guatemala.

O país é o quarto colocado mundial na infame lista de feminicídios. Segundo o Observatório do Grupo de Mulheres, quase 10 mil mulheres foram assassinadas desde 2000, sendo que 90% dos crimes permanecem sem punição.

As letras de Rebeca Lane são fortes e altamente politizadas. Ela usa a música para denunciar e lutar contra as injustiças sociais. Socióloga e poeta (suas poesias já foram publicadas em coletâneas), Rebeca abriu abriu espaço no hip-hop no final dos anos 80, depois do desaparecimento, durante o governo militar, de um tia que era guerrilheira.

Veja um trechinho da canção Mi bandera es negra.

“Para ser ruda no preciso más testosterona
Peligro que mi estrógeno anda machucando bolas
Tengo millones de huevos en cada ovario
No me hace más mujer ni a vos te hace menos macho

Mi rap no es femenino sólo feminista
No busco el poder porque yo soy una anarquista
No quiero dominarte soy una artista
Te embrujan mis palabras porque soy espiritista”

 

3.Eli Almic (Uruguai)

O hip-hop feito por mulheres é relativamente recente no Uruguai e Elisa Fernández, ou simplesmente Eli Almic, é um dos maiores nomes da atualidade.

A moça faz um hip-hop melódico e suave, acompanhado das batidas eletrônicas e samples de jazz e de soul de DJ RC (Rodrigo Chávez). Depois de um EP lançado em 2013, Eli entrou para a lista dos melhores discos de 2016 com o álbum Hace que Exista.

“Eli Almic é o veio rapper de Elisa. Elisa Fernández é a rapper, mas também é a atriz, a professora de Pilates, a que busca como sobreviver todo o tempo trabalhando o mínimo em coisas que realmente importam: a música e a atuação. Eli Almic é a parte mais valente e a que se arrisca, autodidata, inquieta. Elisa faz biscoito de aveia, sonha com viagens, observa, fala alto e/ou rápido. Ambas convivem em harmonia.” – Eli Almic para o Indie Hoy

 

4. Imilla (Bolívia)

Nascida em La Paz, a rapper Valeria Milligan adotou o nome artístico de Imilla MC ( imilla significa criança, em ayamara). A boliviana de 24 anos não é apenas compositora. Dedica parte do tempo ao grafite.

Foi nas ruas da cidade que ela entrou em contato com a galera do rap e começou a compor.

“O rap chegou a mim como um complemento do grafite. Eu fazia muitos grafites e o hip hop me chamava a atenção, por todos os seus elementos e porque, de alguma forma, é uma ferramenta de fácil acesso.” – para o El Mostrador

O primeiro trabalho, Katalicis Katarcis Katarys Kannabis (2012), teve boa recepção pela crítica especializada do país. Em 2016, lançou Reflejos Elementales,  em que explora os elementos da natureza (uma das minhas sugestões é justamente a música Viento).

Uma das marcas da rapper é a introdução de instrumentos andinos, como o charango.

 

5. La Fina (Cuba)

Yamay Mejias Hernandez, ou simplesmente La Fina, não é apenas rapper. Ela é a cabeça por trás do Somos Mucho Más, a única iniciativa voltada ao hip-hop feito por mulheres em Cuba. O rap é usado quase como uma ferramenta na luta contra a desigualdade de gênero.

Nos últimos 15 anos, talvez um pouco mais, La Fina vem lutando para que as rappers sejam reconhecidas e ganhem mais e mais espaço na cena musical cubana. Entre tantos projetos a que se dedica, vale destacar que ela foi a idealizadora do primeiro festival de rap feminino de Cuba.

Olha só como ela se autodescreve em sua página no Facebook:

“Mi nombre es Yamay, me dicen La Fina. Soy una mujer comun pero de pensamientos profundos. Durante mi carrera artistica he defendido a la mujer haciendole ver al mundo que tenemos un papel protagonico para el mundo, para la vida en general.”

 

Preste atenção à letra de No Aguentes Más.

 

 

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