O rapper que reinterpretou Camus e Verdi

abd-al-malik

Se você ainda não conhece esse cara, guarde bem o nome dele: Abd al Malik. Não só ele é o retrato da França multicultural, com todos os seus desafios, paradoxos e problemas, concentrados particularmente na periferia, onde vivem basicamente imigrantes e negros, como é um dos mais produtivos e geniais artistas de sua geração e o mais influente artista do hip-hop na França. Ele não faz música apenas. Escreve, dirige, atua, trabalha com o teatro e a ópera.

Abd al Malik arrebentou em um momento em que a França viu a população jovem e filhos de imigrantes dos subúrbios se levantar e protestar violentamente por melhores condições (2005).

Inspirado pelo sufismo (corrente mística do islamismo), religião que adotou depois de passar a infância como na igreja católica, al Malik surgiu com Gibraltar, disco que combinava letras poderosas (poesia slam), mas que pediam o fim do ódio, sonoridade que incorporava elementos do jazz, do rap/hip-hop e até da chanson francesa – é clara a influência de um de seus ídolos, Jacques Brel (no álbum, há as participações do pianista e do acordeonista de Brel: Gérard Jouannest e Marcel Azzola). Les autres, por exemplo, é a visão do músico da canção Ces gens-là, de Jacques Brel.

Como diz Jacques Denis no Le Monde Diplomatique, o disco foi recebido como uma benção, ao preconizar a fraternidade, mas também a consciência política. Em 2007, Gibraltar leva o prêmio Victoires de la Musique (a mais importante premiação francesa) de melhor disco de música urbana do ano. Em 2008, recebe a insígnia de Cavaleiro das Artes e das Letras.

Era o pontapé que esse artista de origem congolesa precisava. Em 2009, volta a receber o Victoires de la Musique pelo disco Dante.

Camus

Em 2013, al Malik resolve se voltar a outro de seus ídolos, o escritor Albert Camus.

“Eu havia montado o meu primeiro grupo de rap (New African Poet, em 1988, com o irmão Bilal e o primo Aissa) e comecei dar os primeiros passos na obra obra de Camus. Era como se ele estivesse dizendo para mim “Então você quer ser um artista? Isso é o que acontece e isso é o que você não deve se esquecer” – para o Financial Times.

Livremente inspirado no primeiro livro de Camus, L’envers et l’endroit (1937), o espetáculo L’art et la révolte (clique no link e veja trechos do show) mesclou, poesia slam, rap, dança e audiovisual.  Em 2016, ele voltaria a falar de Camus, agora no livro autobiográfico que levou o mesmo nome do espetáculo.

Camus ainda seria inspiração para Scarifications, disco de 2015, em parceira com o produtor e DJ Laurent Garnier.

Ópera de Verdi em versão urbana

O projeto mais recente de al Malik (é de fevereiro de 2017) é a releitura de Othello, ópera de Verdi. Ele trouxe a temática para o ambiente urbano. A ficção, que foi publicada no ambiente digital, tem pouco mais de 12 min. A trilha sonora é a mesma da ópera de Verdi, mas tem arranjo de Arnaud de Solignac.

Abaixo, você ouve Le Marseillais, do disco Dante (2008); Daniel Darc, faixa de Scarifications (2015); e Gilbraltar, do álbum homônimo. Também vê Othello by Abd al Malik.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

.

 

 

 

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s